domingo, 19 de setembro de 2010

Forasteiro

Ele chegou.
Sem rumo, vendado, destruído.
Caminhou por essas nossas ruas. Em voz alta.
Comeu de nossa comida, bebeu de nossa água, dormiu em nossas camas.

Ainda vendado.
Riu de nossas caras.
Conheceu nossas mulheres.
Cuspiu nos mesmos pratos em que comera.
Pisou no rosto que, feliz, a ele serviu. Sirva-se de nós!

Ele se foi.
De olhos ainda fechados.
Com um riso fácil no rosto.
Debochando daqueles que não podiam ver.

Dos quais ele não fazia parte.

Atado

Não é hora
De fechar os olhos
De sonhar

Ainda não posso
Saltar esse abismo
Lançar-me por esse precipício

Não por não ter asas
Pois não quero voar

Não pela falta de coragem
Pois o desejo é maior

Não por medo
Pois há muito o perdi

Não me lanço por ter as pernas presas
Ambas
Atadas por uma corda
Que eu mesmo prendi

Preso por um nó
Dado por mim
Naquela noite de decisão
De caminhos
De escolhas

Tento lançar-me
Mesmo atado
Mesmo sem caminhar

Meu corpo não caíra
Eu sei
Mas minha alma,
Essa já se foi.

Quem?

Eu não sei...

Eu não sei...

Eu não sei, o que eu me tornei.

Nada é como um dia foi,

O vento não sopra na mesma direção,

As folhas não caem no fim do verão,

Meu rio não segue por entre as montanhas de meu destino,

O sol não nasce mais,

Já não vejo o luar,

Nem as nuvens do passado.

Eu já não sei...

Eu já não sei...

Eu já não sei por onde ir,

Que caminhos devo seguir,

Que montanhas escalar.

Eu não sei mais por onde voar,

Por não saber de quem são as asas,

Que carrego atrás de mim.

Eu já não posso mais correr,

Pois esses pés que me guiam,

Não são os mesmos que me trouxeram até aqui.

Eu já não sei quem eu sou,

Não sei pois no meu próprio caminho,

Aquele que desenhei para mim,

Eu me perdi.

Eu já não sei quem eu sou,

Pois não sei o que é saber.

E assim está melhor.

sábado, 7 de agosto de 2010

Senhora de Luar


Há muito tempo atrás comecei uma das minhas muitas histórias interminadas, e há muito tempo atrás postei a primeira parte de Senhora de Luar, uma pequena empolgação minha do fim do ensino médio.

Na época poucos gostaram do que leram, desanimei-me e não mais mostrei ao mundo o que seria a continuação daquela nova aventura. Digo apenas uma palavra então:

Mudança.

E se me permitem, digo outra:

Motivação.

Meu estranho mundinho Insano deve me odiar, pois no ano que ele mais esperava postagens eu o abandonei. E não mais fiz promessas de retorno. Afinal, eu nunca as cumpro.

Mas eis que eu um amigo, um dos novos, leu Senhora de Luar e gostou do que escrevi. E devo admitir, um elogio sempre me derrete. Essa é minha fraqueza.

Portanto aì vai a segunda parte do primeiro capítulo de uma aventura que comecei num dia em que minha mente voava entre amigos e amores, e entre os pinheiros e eucaliptos pelos quais nós nos divertíamos.



Capítulo 1
O Senhor do Sétimo raio
parte 2


A luz do sol ofuscou os olhos do menino que logo os tampou com a palma da mão virada para cima.
Sua cabeça parecia rodar. A última coisa da qual ele se recordava era do fogo consumindo tudo ao seu redor e dos gritos de Jaqueline que pareciam cada vez mais distantes.
O medo então o envolveu.
Por um instante ele se acreditou morto. Mas então Hórus sentiu o calor do sol acariciar sua face, sentiu a grama espetando sob seus braços, escutou o som de água corrente que parecia estar muito perto, e acima de tudo, o que lhe deu certeza de que a vida ainda pulsava dentro dele era a dor latejante em seu joelho esquerdo. Afinal, a dor é a mais viva das sensações.
Lentamente ele se sentou. Tentando se acostumar com a claridade piscou várias vezes franzindo o cenho.
O garoto estava num vasto campo de grama alta e com poucas árvores ao redor; como ele presumira pelo som, havia um riacho de água cristalina a menos de cinqüenta metros à sua direita; altas montanhas circundavam o horizonte dos dois lados, de modo que ele se encontrava em seu vale.
Helga e Lyn Costa estavam deitadas uma ao lado da outra, como se houvessem sido arremessadas de muito longe e com violência, cada uma numa posição mais improvável.
Hórus não reconheceu o local. Decididamente eles não estavam no bosque, e nem mesmo na sua cidade, não havia montanhas naquele estado, e as poucas de seu país estavam na fronteira com as nações vizinhas, e além do mais, o sol dali era um sol de primavera ou de verão, enquanto era princípio de inverno quando ele desmaiara.
Hórus se aproximou das meninas e chamou pelos seus nomes; preguiçosamente elas despertaram e pareceram compartilhar da mesma sensação de tontura e de susto quando abriram os olhos.
- Onde estamos? – perguntou Lyn Costa, - como saímos do bosque?
- A última coisa da qual me lembro era de estar rodopiando em meio às chamas – disse Helga.
- Estou tão confuso quanto vocês duas, não me perguntem nada – exclamou Hórus. – parece que fomos retirados do bosque, mas, porque não estamos em um hospital?
- É estranho – comentou Lyn Costa analisando a paisagem – creio que devamos procurar alguém.
- Procurar alguém? Onde? – respondeu Helga secamente, apesar de ainda tonta – Você vê alguma casa por aqui, por que eu sinceramente não vejo para onde devamos ir. – o tom de Helga não era agradável, o desespero parecia ter se apoderado muito rapidamene dela. E além disso as duas meninas jamais se relacionaram muito bem.
Lyn pareceu querer responder, mas Hórus as interrompeu:
- Parem com isso vocês duas. Eu concordo com você Lyn, devemos procurar alguém, afinal, se ficarmos aqui não se sabe se alguém virá nos resgatar.
- Venci – disse Lyn Costa a Helga com seu tom insuportável. Mesmo em situações adversas as garotas não deixavam de tentar se provarem melhores do que a outra.
- Não era uma disputa – respondeu sensatamente Helga (embora quisesse ter vencido).
- Não importa, competindo comigo ou não, eu fui a vitoriosa.
- Você é patética Lyn.
- Garotas, não é momento para briguinhas idiotas, guardem seus fôlegos para uma eventual fuga. Afinal, nunca se sabe quando teremos que correr. – riu-se Hórus.
- Já que vocês dois querem tão avidamente correr por esta cidade desconhecida, digam-me, para onde pretendem ir? – perguntou Helga
- Ora, a resposta é simples. A meu ver, devemos seguir o curso desse riacho, afinal, a chance de encontrarmos civilização é maior. – respondeu Hórus estendendo o braço direito na direção da água. Havia algumas árvores em toda a extensão da torrente.
- Só um lembrete – Helga parecia contrariada – isso aqui não é um filme muito menos um desenho de aventuras. Suas soluções milagrosas não funcionarão conosco.
- Fique quieta e siga o líder – intrometeu-se Lyn Costa.
- Líder?! – revoltou-se Helga – quem o elegeu líder?
- Eu. – respondeu a outra menina.
- Eu voto em mim mesma, - protestou Helga – É um empate.
- Seu voto vai pra quem meu caro? – perguntou Lyn Costa abraçando Hórus pela cintura e acariciando-lhe a barba.
- Bem, analisando as alternativas, creio que não me resta muitas opções. Meu voto vai para mim mesmo.
- Caso encerrado, - Lyn Costa aproximou seus lábios dos de Hórus e o beijou.
- Lyn, prometo-lhe que quando chegarmos à cidade eu te apresento uma prostituta, ou melhor, um cafetão; mas por enquanto, contenha-se – ridicularizou-a Helga que estava vermelha.
Hórus riu, entretanto afastou a menina dele.
Os três seguiram o curso do riacho. O terreno ali era pedregoso e um pouco escorregadio. Para onde eles olhassem viam verde. Grama alta e umas poucas árvores de copas baixas compunham a paisagem monótona que era quebrada pelas montanhas cinza de picos brancos mais distantes.
Caminharam, caminharam e caminharam.

Decidiram descansar quando o calor tornara-se insuportável.
Pela altura do sol, Helga calculou que deveria ser por volta do meio dia, e seu estômago dizia o mesmo.
Por sorte, as árvores em volta do curso d’água eram em sua maioria frutíferas. Pararam então sob a sombra de uma frondosa macieira, colheram as frutas que estavam mais baixas e sentaram-se com os pés à margem do riacho.
Descansaram um pouco, pois já estavam caminhando há quase uma hora. Despiram-se dos seus casacos sem entretanto os dispensarem, afinal, se continuassem vagando durante a noite, uns agasalhos seriam muito úteis.
Apesar de não serem tão saborosas, as maçãs caíram-lhes como um banquete, e, após comer a quinta Hórus encostou-se no tronco de uma das árvores e adormeceu. Helga seguindo o exemplo do amigo deitou-se em seu colo e em pouco tempo estava sonhando com sua macia cama e seu quente cobertor. Apenas Lyn Costa manteve-se desperta. Havia alguns peixinhos coloridos nas pedras do rio de água limpa, podia-se ver tudo que se passava naquela fraca correnteza, e a garota se divertia brincando com eles.
O silêncio que ali pairava parecia sepulcral, não havia nenhuma ave ou inseto em muitos quilômetros. E ao contrário do que se espera de um campo de grama verde, não havia nenhum veado ou cavalo por toda aquela imensidão; nem mesmo formigas ou cupins pareciam fazer parte daquele lugar.
O céu estava irritantemente azul, não havia nuvens em toda orbe, sequer um rasgo de branco no céu, e, portanto, nenhum sinal de chuva.
O estranho era que para além das montanhas a paisagem parecia completamente distinta. Pouco além dos picos nevados podia-se ver ameaçadoras nuvens que pareciam carregadas de chuva, e, mesmo sem ter certeza, Lyn sabia que ao longo ou depois daquele vale havia vida, havia um cidade, e uma estrada que a levaria para casa, para junto de seus outros amigos que poderiam estar em qualquer lugar, até mesmo ainda presos naquele terrível bosque.
Repentinamente os pensamentos da menina foram interrompidos, suas pálpebras caíram e sua visão e audição subitamente pareceram desaparecer. O mundo girou e ela sentiu-se caindo no vazio, como se o chão houvesse se aberto sob seus pés e a imensidão escura do vácuo a dominasse. E aquilo parecia eterno, um caminho constante rumo ao nada, uma tortura sem fim, um devaneio, um sonho real

sábado, 10 de julho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Máscara

É incrível o que fantasias e algumas máscaras podem causar às pessoas. Depois de ontem, me parece que num baile à fantasia deixamos que um lado nosso, que muitas vezes mantemos escondido, se liberte, saia a tona e dance até o amanhecer.

Certa vez um caro amigo disse-me que quando nos fantasiamos escolhemos nos vestir de acordo com nossos desejos sexuais, pois essa é uma das poucas oportunidades que temos de expô-los em público sem chamar demasiada atenção,pois afinal, todos estão fazendo o mesmo. Se essa teoria se mostrar verdadeira, entenderei o excesso de rabos e chifres, e a ausência de panos nas roupas mesmo em uma noite muito fria.

Pernas de fora, decotes abusados, saias que nada tampam, espartilhos vermelhos (ou verdes) que chamam toda a atenção, músculos forçados à mostra, compõem a paisagem de uma festa na qual nada é proibido. Você pode ser um menino que se transforma em menina, você pode ser uma abusada dançarina Moulin Rouge com todas as penas coloridas que seduzem qualquer homem; você ainda pode ser um ursinho carinhoso carente por um abraço, ou uma gueixa, que, por trás de toda discrição pode esconder coisas inimagináveis.

Eu, por minha vez escolhi vestir uma máscara, e nada mais especial. Deixei de lado as fantasias grandes e engraçadas, ou as bonitas e clássicas, e mesmo aquelas que sempre podemos criar em casa. Não, nada disso parecia se adequar ao que eu realmente queria, até porque eu ainda não sabia o que queria. Então, o que poderia ser melhor que uma tradicional e sugestiva máscara?

Claro que não era difícil me reconhecer, e aqueles que diariamente convivem comigo não exitavam em dizer meu nome logo na primeira vez em que me viam. E hoje, recordando todos os encontros e desencontros da noite de ontem, todas as insinuações, tenho a impressão de que minha singela máscara tornou-se símbolo de algo que eu ainda não sei definir o que.

Desde minha infância as pessoas me contam muitas coisas, não sei o motivo de toda essa confiança, mas se é assim, que assim seja então. E ontem, parece-me que ao me olharem muitos não resistiram ao impulso de logo me contar algo ou demonstrar algo.

Devo dizer que muito ouvi, de muito ri, e por vezes me encontrei boquiaberto com os acontecimentos. E tenho a impressão de que tornei-me esse depósito de segredos devido ao poder da máscara. Claro que ela não é um objeto mágico, porém isso não quer dizer que o objeto não possa fazer nenhuma mágica

Quem sabe ao me olharem e verem apenas parte de mim essas pessoas tenham pensando que eu não era realmente eu ali, mas apenas um pouco do todo, e que, ao tirar a máscara, o passado, o contado e compartilhado iria ser esquecido, iria ser guardado até o próximo baile.

Pois afinal, na nossa cultura as máscaras sempre representaram muito, e, na minha opinião, elas representam mistério acima de todas as coisas. Elas podem representar novas possibilidades, novas descobertas, novas realidades, pois mascarado, não se é facilmente reconhecido, então pode-se muito bem fazer aquilo que se deseja mas que não pode ser feito.

E devo dizer que não esperava descobrir tantas possibilidades e novas realidades, o que não quer dizer que não tenha gostado de descobrir tanto. Algumas descobertas simples, contadas ao pé do ouvido, outras não sendo realmente contadas, mas demonstradas com enlaçamento de mãos que ainda não sei onde poderia me levar, outra ainda, e essa foi minha descoberta predileta, foi dita não com palavras, mas sim causando-me arrepios que ainda posso sentir, mesmo depois de tantas horas.

E agora, no dia seguinte, creio que todos tenham acordado como eu, sentindo como se tivessem vivido um sonho belíssimo no qual dançávamos uma dança de mistérios, onde ser o que se é convencionalmente é o não convencional, uma misteriosa noite de mascarados, que desejávamos não ter fim. Porém ela teve, e por vezes fui desperto com mensagens no meu celular, todas dizendo a mesma coisa: "Guarde o nosso segredo."

Sim meus caros, os guardarei com muito prazer e divertimento, porém jamais os esquecerei. Especialmente alguns que particularmente me agradaram, particularmente aquele que ainda me arrepia os pêlos da nuca, aquele que me fez ansiar pela próxima noite de fantasias, pois nada foi melhor do que ser a máscara que outros queriam colocar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pensando na saudade

Quando me mudei de cidade e de vida, imaginei que fosse passar muito mais tempo no blog do que passava antes. O que não ocorreu.

Ao notar que minha última postagem aqui foi no dia 24/03 bateu uma certa vergonha. Essa não foi a primeira vez que abandonei de certo modo o Meu estranho mundinho insano, e não só ele, bem como os outros blogs. Às vezes me pergunto se realmente estou pronto, ou se realmente posso seguir o mundo das palavras, pois sequer consigo manter uma regularidade por aqui. Imagine então levar as letras como meio de vida.

O engraçado é que, posso passar um, dois, três meses sem escrever nada por aqui, e quando volto, sinto-me como se nada tivesse ocorrido, como se a última postagem tivesse sido ontem. E são nesses momentos que reafirmo meu caso de amor com as ideias, com os pensamentos e com sua manifestação escrita.

Sinto muita saudade da época em que podia ficar em casa o dia todo postando duas ou três vezes em menos de 24hs. Porém não posso querer retomar uma realidade que já não é mais real. Preciso me adequar ao novo estilo de vida, e contar por aqui o que anda ocorrendo, e mesmo porque ando tão afastado.

Por mais de uma vez prometi não abandonar o Meu estranho mundinho. E acabei por não cumprir com a minha palavra. Portanto, dessa vez não direi que estou de volta com força total como um Power Ranger. Não. Dessa vez direi que é muito bom poder estar aqui, e que é muito triste eu esquecer do prazer de escrever.

Só digo uma coisa: fiquem de olhos abertos, pois hora ou outra, estarei com minhas amigas letras por aqui.