sábado, 7 de agosto de 2010

Senhora de Luar


Há muito tempo atrás comecei uma das minhas muitas histórias interminadas, e há muito tempo atrás postei a primeira parte de Senhora de Luar, uma pequena empolgação minha do fim do ensino médio.

Na época poucos gostaram do que leram, desanimei-me e não mais mostrei ao mundo o que seria a continuação daquela nova aventura. Digo apenas uma palavra então:

Mudança.

E se me permitem, digo outra:

Motivação.

Meu estranho mundinho Insano deve me odiar, pois no ano que ele mais esperava postagens eu o abandonei. E não mais fiz promessas de retorno. Afinal, eu nunca as cumpro.

Mas eis que eu um amigo, um dos novos, leu Senhora de Luar e gostou do que escrevi. E devo admitir, um elogio sempre me derrete. Essa é minha fraqueza.

Portanto aì vai a segunda parte do primeiro capítulo de uma aventura que comecei num dia em que minha mente voava entre amigos e amores, e entre os pinheiros e eucaliptos pelos quais nós nos divertíamos.



Capítulo 1
O Senhor do Sétimo raio
parte 2


A luz do sol ofuscou os olhos do menino que logo os tampou com a palma da mão virada para cima.
Sua cabeça parecia rodar. A última coisa da qual ele se recordava era do fogo consumindo tudo ao seu redor e dos gritos de Jaqueline que pareciam cada vez mais distantes.
O medo então o envolveu.
Por um instante ele se acreditou morto. Mas então Hórus sentiu o calor do sol acariciar sua face, sentiu a grama espetando sob seus braços, escutou o som de água corrente que parecia estar muito perto, e acima de tudo, o que lhe deu certeza de que a vida ainda pulsava dentro dele era a dor latejante em seu joelho esquerdo. Afinal, a dor é a mais viva das sensações.
Lentamente ele se sentou. Tentando se acostumar com a claridade piscou várias vezes franzindo o cenho.
O garoto estava num vasto campo de grama alta e com poucas árvores ao redor; como ele presumira pelo som, havia um riacho de água cristalina a menos de cinqüenta metros à sua direita; altas montanhas circundavam o horizonte dos dois lados, de modo que ele se encontrava em seu vale.
Helga e Lyn Costa estavam deitadas uma ao lado da outra, como se houvessem sido arremessadas de muito longe e com violência, cada uma numa posição mais improvável.
Hórus não reconheceu o local. Decididamente eles não estavam no bosque, e nem mesmo na sua cidade, não havia montanhas naquele estado, e as poucas de seu país estavam na fronteira com as nações vizinhas, e além do mais, o sol dali era um sol de primavera ou de verão, enquanto era princípio de inverno quando ele desmaiara.
Hórus se aproximou das meninas e chamou pelos seus nomes; preguiçosamente elas despertaram e pareceram compartilhar da mesma sensação de tontura e de susto quando abriram os olhos.
- Onde estamos? – perguntou Lyn Costa, - como saímos do bosque?
- A última coisa da qual me lembro era de estar rodopiando em meio às chamas – disse Helga.
- Estou tão confuso quanto vocês duas, não me perguntem nada – exclamou Hórus. – parece que fomos retirados do bosque, mas, porque não estamos em um hospital?
- É estranho – comentou Lyn Costa analisando a paisagem – creio que devamos procurar alguém.
- Procurar alguém? Onde? – respondeu Helga secamente, apesar de ainda tonta – Você vê alguma casa por aqui, por que eu sinceramente não vejo para onde devamos ir. – o tom de Helga não era agradável, o desespero parecia ter se apoderado muito rapidamene dela. E além disso as duas meninas jamais se relacionaram muito bem.
Lyn pareceu querer responder, mas Hórus as interrompeu:
- Parem com isso vocês duas. Eu concordo com você Lyn, devemos procurar alguém, afinal, se ficarmos aqui não se sabe se alguém virá nos resgatar.
- Venci – disse Lyn Costa a Helga com seu tom insuportável. Mesmo em situações adversas as garotas não deixavam de tentar se provarem melhores do que a outra.
- Não era uma disputa – respondeu sensatamente Helga (embora quisesse ter vencido).
- Não importa, competindo comigo ou não, eu fui a vitoriosa.
- Você é patética Lyn.
- Garotas, não é momento para briguinhas idiotas, guardem seus fôlegos para uma eventual fuga. Afinal, nunca se sabe quando teremos que correr. – riu-se Hórus.
- Já que vocês dois querem tão avidamente correr por esta cidade desconhecida, digam-me, para onde pretendem ir? – perguntou Helga
- Ora, a resposta é simples. A meu ver, devemos seguir o curso desse riacho, afinal, a chance de encontrarmos civilização é maior. – respondeu Hórus estendendo o braço direito na direção da água. Havia algumas árvores em toda a extensão da torrente.
- Só um lembrete – Helga parecia contrariada – isso aqui não é um filme muito menos um desenho de aventuras. Suas soluções milagrosas não funcionarão conosco.
- Fique quieta e siga o líder – intrometeu-se Lyn Costa.
- Líder?! – revoltou-se Helga – quem o elegeu líder?
- Eu. – respondeu a outra menina.
- Eu voto em mim mesma, - protestou Helga – É um empate.
- Seu voto vai pra quem meu caro? – perguntou Lyn Costa abraçando Hórus pela cintura e acariciando-lhe a barba.
- Bem, analisando as alternativas, creio que não me resta muitas opções. Meu voto vai para mim mesmo.
- Caso encerrado, - Lyn Costa aproximou seus lábios dos de Hórus e o beijou.
- Lyn, prometo-lhe que quando chegarmos à cidade eu te apresento uma prostituta, ou melhor, um cafetão; mas por enquanto, contenha-se – ridicularizou-a Helga que estava vermelha.
Hórus riu, entretanto afastou a menina dele.
Os três seguiram o curso do riacho. O terreno ali era pedregoso e um pouco escorregadio. Para onde eles olhassem viam verde. Grama alta e umas poucas árvores de copas baixas compunham a paisagem monótona que era quebrada pelas montanhas cinza de picos brancos mais distantes.
Caminharam, caminharam e caminharam.

Decidiram descansar quando o calor tornara-se insuportável.
Pela altura do sol, Helga calculou que deveria ser por volta do meio dia, e seu estômago dizia o mesmo.
Por sorte, as árvores em volta do curso d’água eram em sua maioria frutíferas. Pararam então sob a sombra de uma frondosa macieira, colheram as frutas que estavam mais baixas e sentaram-se com os pés à margem do riacho.
Descansaram um pouco, pois já estavam caminhando há quase uma hora. Despiram-se dos seus casacos sem entretanto os dispensarem, afinal, se continuassem vagando durante a noite, uns agasalhos seriam muito úteis.
Apesar de não serem tão saborosas, as maçãs caíram-lhes como um banquete, e, após comer a quinta Hórus encostou-se no tronco de uma das árvores e adormeceu. Helga seguindo o exemplo do amigo deitou-se em seu colo e em pouco tempo estava sonhando com sua macia cama e seu quente cobertor. Apenas Lyn Costa manteve-se desperta. Havia alguns peixinhos coloridos nas pedras do rio de água limpa, podia-se ver tudo que se passava naquela fraca correnteza, e a garota se divertia brincando com eles.
O silêncio que ali pairava parecia sepulcral, não havia nenhuma ave ou inseto em muitos quilômetros. E ao contrário do que se espera de um campo de grama verde, não havia nenhum veado ou cavalo por toda aquela imensidão; nem mesmo formigas ou cupins pareciam fazer parte daquele lugar.
O céu estava irritantemente azul, não havia nuvens em toda orbe, sequer um rasgo de branco no céu, e, portanto, nenhum sinal de chuva.
O estranho era que para além das montanhas a paisagem parecia completamente distinta. Pouco além dos picos nevados podia-se ver ameaçadoras nuvens que pareciam carregadas de chuva, e, mesmo sem ter certeza, Lyn sabia que ao longo ou depois daquele vale havia vida, havia um cidade, e uma estrada que a levaria para casa, para junto de seus outros amigos que poderiam estar em qualquer lugar, até mesmo ainda presos naquele terrível bosque.
Repentinamente os pensamentos da menina foram interrompidos, suas pálpebras caíram e sua visão e audição subitamente pareceram desaparecer. O mundo girou e ela sentiu-se caindo no vazio, como se o chão houvesse se aberto sob seus pés e a imensidão escura do vácuo a dominasse. E aquilo parecia eterno, um caminho constante rumo ao nada, uma tortura sem fim, um devaneio, um sonho real

sábado, 10 de julho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Máscara

É incrível o que fantasias e algumas máscaras podem causar às pessoas. Depois de ontem, me parece que num baile à fantasia deixamos que um lado nosso, que muitas vezes mantemos escondido, se liberte, saia a tona e dance até o amanhecer.

Certa vez um caro amigo disse-me que quando nos fantasiamos escolhemos nos vestir de acordo com nossos desejos sexuais, pois essa é uma das poucas oportunidades que temos de expô-los em público sem chamar demasiada atenção,pois afinal, todos estão fazendo o mesmo. Se essa teoria se mostrar verdadeira, entenderei o excesso de rabos e chifres, e a ausência de panos nas roupas mesmo em uma noite muito fria.

Pernas de fora, decotes abusados, saias que nada tampam, espartilhos vermelhos (ou verdes) que chamam toda a atenção, músculos forçados à mostra, compõem a paisagem de uma festa na qual nada é proibido. Você pode ser um menino que se transforma em menina, você pode ser uma abusada dançarina Moulin Rouge com todas as penas coloridas que seduzem qualquer homem; você ainda pode ser um ursinho carinhoso carente por um abraço, ou uma gueixa, que, por trás de toda discrição pode esconder coisas inimagináveis.

Eu, por minha vez escolhi vestir uma máscara, e nada mais especial. Deixei de lado as fantasias grandes e engraçadas, ou as bonitas e clássicas, e mesmo aquelas que sempre podemos criar em casa. Não, nada disso parecia se adequar ao que eu realmente queria, até porque eu ainda não sabia o que queria. Então, o que poderia ser melhor que uma tradicional e sugestiva máscara?

Claro que não era difícil me reconhecer, e aqueles que diariamente convivem comigo não exitavam em dizer meu nome logo na primeira vez em que me viam. E hoje, recordando todos os encontros e desencontros da noite de ontem, todas as insinuações, tenho a impressão de que minha singela máscara tornou-se símbolo de algo que eu ainda não sei definir o que.

Desde minha infância as pessoas me contam muitas coisas, não sei o motivo de toda essa confiança, mas se é assim, que assim seja então. E ontem, parece-me que ao me olharem muitos não resistiram ao impulso de logo me contar algo ou demonstrar algo.

Devo dizer que muito ouvi, de muito ri, e por vezes me encontrei boquiaberto com os acontecimentos. E tenho a impressão de que tornei-me esse depósito de segredos devido ao poder da máscara. Claro que ela não é um objeto mágico, porém isso não quer dizer que o objeto não possa fazer nenhuma mágica

Quem sabe ao me olharem e verem apenas parte de mim essas pessoas tenham pensando que eu não era realmente eu ali, mas apenas um pouco do todo, e que, ao tirar a máscara, o passado, o contado e compartilhado iria ser esquecido, iria ser guardado até o próximo baile.

Pois afinal, na nossa cultura as máscaras sempre representaram muito, e, na minha opinião, elas representam mistério acima de todas as coisas. Elas podem representar novas possibilidades, novas descobertas, novas realidades, pois mascarado, não se é facilmente reconhecido, então pode-se muito bem fazer aquilo que se deseja mas que não pode ser feito.

E devo dizer que não esperava descobrir tantas possibilidades e novas realidades, o que não quer dizer que não tenha gostado de descobrir tanto. Algumas descobertas simples, contadas ao pé do ouvido, outras não sendo realmente contadas, mas demonstradas com enlaçamento de mãos que ainda não sei onde poderia me levar, outra ainda, e essa foi minha descoberta predileta, foi dita não com palavras, mas sim causando-me arrepios que ainda posso sentir, mesmo depois de tantas horas.

E agora, no dia seguinte, creio que todos tenham acordado como eu, sentindo como se tivessem vivido um sonho belíssimo no qual dançávamos uma dança de mistérios, onde ser o que se é convencionalmente é o não convencional, uma misteriosa noite de mascarados, que desejávamos não ter fim. Porém ela teve, e por vezes fui desperto com mensagens no meu celular, todas dizendo a mesma coisa: "Guarde o nosso segredo."

Sim meus caros, os guardarei com muito prazer e divertimento, porém jamais os esquecerei. Especialmente alguns que particularmente me agradaram, particularmente aquele que ainda me arrepia os pêlos da nuca, aquele que me fez ansiar pela próxima noite de fantasias, pois nada foi melhor do que ser a máscara que outros queriam colocar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pensando na saudade

Quando me mudei de cidade e de vida, imaginei que fosse passar muito mais tempo no blog do que passava antes. O que não ocorreu.

Ao notar que minha última postagem aqui foi no dia 24/03 bateu uma certa vergonha. Essa não foi a primeira vez que abandonei de certo modo o Meu estranho mundinho insano, e não só ele, bem como os outros blogs. Às vezes me pergunto se realmente estou pronto, ou se realmente posso seguir o mundo das palavras, pois sequer consigo manter uma regularidade por aqui. Imagine então levar as letras como meio de vida.

O engraçado é que, posso passar um, dois, três meses sem escrever nada por aqui, e quando volto, sinto-me como se nada tivesse ocorrido, como se a última postagem tivesse sido ontem. E são nesses momentos que reafirmo meu caso de amor com as ideias, com os pensamentos e com sua manifestação escrita.

Sinto muita saudade da época em que podia ficar em casa o dia todo postando duas ou três vezes em menos de 24hs. Porém não posso querer retomar uma realidade que já não é mais real. Preciso me adequar ao novo estilo de vida, e contar por aqui o que anda ocorrendo, e mesmo porque ando tão afastado.

Por mais de uma vez prometi não abandonar o Meu estranho mundinho. E acabei por não cumprir com a minha palavra. Portanto, dessa vez não direi que estou de volta com força total como um Power Ranger. Não. Dessa vez direi que é muito bom poder estar aqui, e que é muito triste eu esquecer do prazer de escrever.

Só digo uma coisa: fiquem de olhos abertos, pois hora ou outra, estarei com minhas amigas letras por aqui.

quarta-feira, 24 de março de 2010

É inevitável, uma criação puxa a outra

Sempre que percebo que alguma coisa que faço vai ganhar vida própria eu reservo a ela um espaço próprio. E isso mais uma vez aconteceu.

Há muitos meses, numa noite alucinadamente febril, na qual escrever foi a única solução que encontrei para tanta dor e suor, comecei algo que deixei incompleto, esquecido por muito tempo. Era a dura época de cursinho, na qual eu tinha de decorar fórmulas que, ainda continuo a afirmar, não me servirão de nada.

Passado. E que seja sempre assim.

E hoje, quando menos esperava senti novamente o chamado pelo qual eu sempre aguardo. Um chamado tão intenso que me impede de dormir, mesmo que eu esteja madrugada adentro. O chamado das palavras. Palavras que querem se libertar de mim.

E nessa vontade de ganhar o mundo, elas me conduziram de volta àquela noite de febre, e ao meu amado Três Quartos, que por mais esquecido que estivesse ainda vivia dentro de mim.

Sinto que é chegada a hora deu continuar do ponto onde parei e concluir o que comecei. Abrir ou fechar definitivamente aquela porta, amarela no corredor, e marrom-avermelhada por dentro. Cor de terra e sangue.

Portanto, após escrever o que por meses mantive encarcerado, decidi criar um outro blog. Pois o Meu Estranho Mundinho funciona como uma grande mãe, que gera filhos e mais filhos. Alguns por aqui permanecem. Outros, amadurecem tanto, que logo saem do lar original.

E assim nasceu o Tr3s Quartos, um espaço único para aquele reino de poeira e delírios, de homens sozinhos e espelhos manchados.


Convido todos a abrirem a porta, sem deixar muita luz entrar, e penetrar numa terra de papel e imaginação. Com um cheiro de pizza, e algum mofo.

Três Quartos - III

A chama ardia. Dançava entre seus dedos e queimava levemente sua frágil pele. Não havia muito a se ver por ali: uma cama suja, com um lençol revirado e rasgado, livros espalhados por todo o quarto e pedaços de papel, provavelmente anotações desperdiçadas. Havia também um espelho, um pouco sujo e velho. O homem aproximou-se do espelho, passou o punho esquerdo por ele esperando que assim pudesse enxergar melhor. E enxergou. Não a si mesmo, mas ao outro homem que ali no quarto estava sentado.

O homem trabalhava num fórum. Nos arquivos subterrâneos e empoeirados, cheio de traças, aranhas e doenças respiratórias. Lá ele desperdiçava um terço do seu dia, lendo coisas inúteis e organizando a vida de outros, enquanto a sua estava uma bagunça.

Há três anos terminara com sua namorada, ou melhor, sua noiva. Todos eram felizes até então. Ele era um bom advogado, trabalhava pouco, ganhava muito. Sua companheira uma médica bem sucedida. Pediatra. Eram donos de uma grande casa com três carros na garagem. Comiam o melhor que o dinheiro podia pagar, vestiam-se da maneira mais elegante que podiam. Eram ricos.

A visão de outra pessoa naquele cômodo o assutou de modo tão intenso que suas mãos não suportaram segurar mais o isqueiro, e as trevas cairam sobre seus olhos.

O casamento estava marcado para dali a cinco meses. Seria em junho, num lugar frio, numa serra em meio a pinheiros e música clássica. Sua noiva estava grávida, a criança nasceria no calor de janeiro, e enquanto os meses de inverno não chegassem, a noiva se recuperaria do parto, que sempre deixa as mulheres fragilizadas.

A gravidez sem dúvida alguma estreitou e muito o laço entre o casal. Eles experimentaram amor de verdade pela primeira vez, pois havia algo que os unia, algo que para sempre os ligaria. Ser pai, ser mãe, dera tanto sentido a vida dos dois, e tomara tanta importância naquela relação que ambos deixaram de viver para si próprios, e passaram a depender daquela nova existência.

O homem não se movia. Sequer respirava. Pela segunda vez na sua vida sentiu-se perdido, sozinho, ameaçado e nu diante de um outro que detinha todo o poder no jogo. No silêncio ele escutou uma respiração que lentamente se acelerava, como um lobo que se prepara para o ataque, deixando a adrenalina correr lentamente pelas suas veias.

E o líquido desceu, e junto com ele sangue. A mulher entrara em trabalho de parto, porém algumas complicações pareceram surgir no último dia de gravidez, e a corrida alucinada ao hospital se deu. Mas não foi o suficiente. Entre sujeira, sangue e dor havia morte. A criança nascera sem vida.

Lágrimas correram pelas faces tanto do homem quanto da mulher. Eles esperavam tanto pela vida que gerariam, pelo filho que chamariam deles, pelos risos, pela alegria. Nada os faria mais felizes, tão completos, unidos. E a morte que desceu pelas coxas trouxe consigo outro fim. E em poucos meses cada um seguia seu caminho: a mulher buscava outra vida, o homem, nada mais queria.

"Eu o estava esperando, me perguntava se você realmente viria" - uma voz masculina no quarto escuro se dirigira ao homem. Esse por sua vez novamente estremeceu. Aquele som, aquela voz, era tão familiar, tão aconchegante e ao mesmo tempo ameaçadora. Ele temia.

Morte. Não só para seu filho, ou para seu relacionamento, mas também para ele. Sua vida perdera o sentido. Os casos no escritório de advocacia eram passados a outros colegas, trabalhar não fazia o menor sentido, conviver com outras pessoas muito menos. A alegria passou a fazer parte de um passado distante, e os planos de felicidade foram enterrados juntos com o bebê num caixão branco. Morte.

O homem no quarto, assustado, abaixou e começou a tatear o chão a procura do seu isqueiro verde. Ele não estava ali, teria rolado para longe? Estaria sob algum móvel ou roupa suja?

Ele vendera seu carro, a casa, sua esposa ganhou judicialmente, suas roupas foram vendidas e renderam-lhe uma boa quantia, afinal, ele só vestia o melhor. Seus pertences foram encerrados num galpão que ele alugara por um ano, próximo ao porto.

Precisava de um lugar, um teto para dormir. Os hotéis caros estavam foram de cogitação, pois ali ele esbarraria a todo momento com rostos conhecidos, e o que ele menos precisava no momento era de palavras amigas e de consolo. Ele queria o isolamento, uma vida diferente.

No quarto o homem escutou um ranger, provavelmente de uma cadeira. E novamente temeu.

Conheceu então os bairros pobres, imundos e prostituídos. Corpos sujos se esfregando, repletos de doenças e imundícies. E a miséria era incomparável. Ele jamais imaginara o que significava pobreza, agora sentiria isso na pele. Não que fosse pobre, mas ali decidira recomeçar. Ou pelo menos tentar.

E assim conhecera aquele cortiço, de quartos baratos e encardidos. Repleto de portas iguais e muitas sem numeração, o que sempre o confundia. Sua figura era estranha para os moradores dos subúrbios, pois apesar da negação à antiga vida, sua pele clara e seu cabelo liso aliado aos seus olhos claros denunciavam sua origem. Pois naquela cidade, a cor dizia muito sobre as pessoas.

Morte. Seu filho morrera e com ele a antiga vida.

Luz.

Trevas. Para as trevas ele se retiraria até que a vida voltasse a fazer sentido.

Um brilho. Atrás do homem que temia olhar pro espelho e enxergar de onde aquilo vinha.

Dor. Perdera tudo o que tinha, sua amada mulher, aquela que ele escolhera para o resto da vida.

Mas não pode evitar e viu.

Silêncio. Era tudo do que precisava naquele momento, no qual toda palavra soaria como o som de uma lâmina rasgando lentamente a pele.

O outro homem estava sentado numa cadeira de madeira no outro canto do quarto. As pernas juntas e coladas ao chão, vestindo um terno preto extremamente amassado. Na sua mão direita segurava um isqueiro verde, o isqueiro do homem, que iluminava o quarto.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A verdade é um espelho que se quebrou, e cada um pegou um pedaço

Há poucos dias tive uma conversa com um amigo sobre diferenças culturais que me deixou muito inquieto. A ponto de levar a discussão a outros círculos de amizade, e o assunto não foi menos polêmico.

Tudo começou quando li uma reportagem que tratava da proibição da homossexualidade em Uganda. Sim, proibição. Aquele indivíduo que fosse incriminado sofreria duras penas, até mesmo de morte.

Para nós ocidentais, e especialmente brasileiros, isso soa como algo terrível, que fere os principais direitos humanos, é um assunto particular, e deve ser tratado como tal. Logo, nos vem à mente frases como "A África realmente tem sociedades atrasadas". E essa frase ficou ecoando na minha cabeça por dias.

A discussão ainda levantou outros tópicos como por exemplo, a mutilação das meninas de certas regiões africanas, que jamais saberão o que é o prazer sexual. Atos como esse só reforçam a ideia de que aquele povo sofre as dores de um grande atraso, socio-cultural, que impede que a felicidade e a igualdade reine por aquelas terras.

Mas então me vem a pergunta: Quem somos nós para afirmar que a África tem sociedades atrasadas? E se tiver, qual é a sociedade evoluída que vai avaliá-la? A nossa?

Por mais que eu defenda os direitos dos homossexuais, das mulheres, e de qualquer outro ser humano, creio que devo ser mais cuidadoso ao avaliar certos casos. Se Uganda quer proibir os relacionamentos homossexuais, certamente há um porquê, uma justificativa, e uma razão pela qual o povo daquele país julga relações com pessoas do mesmo sexo como algo negativo.

É difícil dizer isso, mas, se um povo decide por um lado, o que podemos fazer para mudar essa realidade? Impor mais uma vez nosso modelo cultural ao outro, ao africano? Vale a pena lembrar que, essa imposição, essa intromissão dos valores europeus naquele continente é sem dúvida o grande responsável pela realidade daquelas pessoas que sofrem as mazelas da pobreza, guerra e medo.

Talvez, se as nações mais poderosas não tivessem esse ímpeto de sempre se intrometerem nas questões externas, no andamento de um outro Estado, as coisas fossem muito diferentes. Se o cristianismo europeu não tivesse alcançado Uganda, talvez ser homossexual fosse algo natural para a população daquele país.

Todo povo e país é soberano, pelo menos é assim que eu vejo o mundo. Nós como brasileiro temos essa ideia embutida dentro de nós, porém em algum canto escuro da nossa mente, pois se tratando de nossa Amazônia por exemplo, não hesitamos em dizer "A floresta é nosso, assunto nacional, não se intrometam". Porém, quando somos nós que apontamos os "defeitos" nos outros, tudo fica muito simples.

Não venho aqui dizer que sou a favor de pena de morte aos homossexuais em Uganda, muito menos defendo a mutilação das meninas - pobres meninas - que farão sexo apenas para procriação.

É difícil ser neutro nessas situações, eu mesmo não sou. Pois se pudesse mudaria essa realidade na qual as garotas e os gays vivem. Porém, o que faria? Provavelmente tentaria encaixá-los na realidade do Brasil, um lugar que para mim é bom, me faz sentir bem.

Essa é minha realidade. Minha verdade. Se um europeu a criticar e tentar me tirar do meu mundo, não ficarei contente com ele. Pois não quero uma visão de mundo diferente da que eu tenho, pois a vejo como a melhor. E estou feliz inserido nela.

Então, antes de pensar em mudar a realidade de um outro povo, devemos primeiro refletir, e nos questionar se aquele povo pretende a mudança. Ou estarão eles satisfeitos com a vida que levam?

Hoje ouvi uma frase muito interessante: "Para que se construa os direitos universais, será necessário destruir as culturas locais". E é isso que estamos fazendo. A humanidade sempre o fez. É só olhar a nossa volta e percebemos isso. Éramos uma terra de pagãos, hoje somos um bom país cristão, do jeito que os jesuítas desejavam. A verdade que vieram aqui plantar.

Encerro com um provérbio que curiosamente acabo de receber via orkut de um amigo:

"A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um recolhe o pedaço e diz que toda a verdade está naquele caco."

Ditado Iraniano

Não devemos buscar conceitos universais de cultura, sociedade e comportamento, pois isso nada fará além de destruir povos e engolir costumes seculares, por vezes milenares. Não devemos buscar verdades eternas construídas com base nas diferenças, e nos conflitos entre povos, mas sim assimilar o que de melhor há em cada comportamento, e assim cultivar as diferenças, que é uma das melhores coisas que temos.